Fundos ESG decepcionam no retorno e nas captações

No ano passado, apenas seis fundos com foco em empresas e ativos alinhados com a pauta ESG foram lançados nos Estados Unidos, em comparação com uma média de quase cem entre 2022 e 2022. No Brasil, o setor ainda está engatinhando, com 70 fundos com selo da Anbima. Segundo levantamento realizado pela Ável Investimentos, dos 34 fundos atualmente abertos para aportes na plataforma da XP, apenas 11 bateram o CDI nos últimos 12 meses. Em 36 meses, o número é ainda menor: três fundos.

Globalmente, os fundos classificados como “investimento responsável” registraram entradas líquidas de US$ 68 bilhões no ano passado, até 30 de novembro, conforme dados da LSEG Lipper – uma queda e tanto em relação aos US$ 158 bilhões de todo o ano de 2022 e aos US$ 558 bilhões de 2021.

A categoria teve grande impulso em 2020 e 2021 durante a pandemia de COVID-19, quando os baixos preços do petróleo incentivaram mais investidores a diversificar além dos combustíveis fósseis, e gestores buscaram demonstrar maior consciência climática. Mas à medida que os preços da energia convencional dispararam, a popularidade dos fundos ESG despencou.

A reação política contra o ESG liderada por políticos republicanos nos Estados Unidos, junto com suspeitas de “greenwashing”, também apagaram o brilho do segmento. Segundo o relatório Brazil ESG Strategy, do Itaú BBA, 94% dos investidores globais consultados já identificaram a prática em relatórios corporativos.

Juros altos contribuíram para os resultados, no Brasil e no exterior, tanto por inibir investimentos de empresas em projetos verdes de alto custo como por desestimular a aquisição de ativos de risco no mercado financeiro. Com isso em vista, o especialista em investimentos da Ável Ismael Lopes acredita que a queda na Selic pode atrair recursos para os fundos ESG no País. Mas, no seu entender, taxas menores por si só não são suficientes. “A grande questão é que hoje não é bem claro para o brasileiro e para o mercado qual o incentivo desses investimentos e nem que fundos investem em quê”, afirma.


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Apesar dos resultados pouco animadores, 85% dos investidores mencionados pelo relatório do Itaú BBA, divulgado neste mês, afirmaram que produtos financeiros ESG dão retorno igual ou superior aos tradicionais. O estudo também diz que, no longo prazo, o desempenho de empresas ESG tende a ser maior.

Rafael Zlot, CIO de Renda Fixa da Genial, concorda. Sobre o E (de meio ambiente, em inglês) da sigla, ele diz: “A utilização de recursos naturais de maneira me parece trazer resultados financeiros no médio e longo prazo.” Em relação ao G, afirma: “Problemas de governança também trazem impacto nos rendimentos”. E sobre o S, o pilar social do pilar, exemplifica: “Aspectos como diversidade na equipe contribuem para melhores resultados”, completa a respeito do S, o pilar social do tripé.  

Lançado em dezembro de 2020, o fundo ESG da Genial, com foco em crédito privado, teve rendimento acumulado de 107% do CDI. O patrimônio é pequeno, em torno de R$ 10 milhões. “No começo, em 2021, parecia uma explosão, que todo mundo iria começar um negócio (ESG), mas não pegou”, diz ele. “Ainda”, ressalta. “Às vezes as teses demoram a amadurecer. Fundos imobiliários, por exemplo, demoraram para pegar e, de repente, você tem uma enxurrada deles”, diz.

Private Equity

“Quando vemos lançamentos de fundos ESG, muitas vezes é numa linha de private equity”, diz. Segundo ele, o segmento atrai mais investidores, em parte pela possibilidade de provocar maior impacto no negócio. Ele compara: “Em private equity, o gestor injeta realmente patrimônio na empresa, o que faz diferença”.

A W Capital é uma das gestoras que aposta no segmento. Seu foco de atuação está na redução da pegada de carbono das empresas investidas. O sócio-fundador, Guilherme Waetge, conta como opera: “Como sempre analisamos dados financeiros, comerciais, contábeis, vantagens competitivas e tudo mais. Mas, além disso, a gente olha a pegada de carbono e os fatores responsáveis por ela para, junto com a empresa,  traçarmos metas para sua redução.” Caso as metas não sejam cumpridas a empresa paga multa, usada para compra de crédito de carbono.

No entender do gestor, a estratégia tem pelo menos duas vantagens. De saída, estabelece critérios objetivos para a atuação ESG dos fundos, de forma a combater o greenwashing. “O carbono é fácil de metrificar”, diz Waetge.

Além disso, a metodologia evita um problema comum nos investimentos ESG: o leque relativamente reduzido de opções de investimento. “Quando você faz um filtro muito grande na questão ESG você não consegue fazer um filtro muito grande também na performance financeira, porque senão as oportunidades de investimentos ficam muito pequenas.” Isso, porém, não ocorre com as empresas na mira do fundo, raciocina ele. Afinal, não faltam empresas com emissão de carbono para reduzir.

O primeiro fundo da W Capital aportou R$ 65 milhões na fabricante de bebidas Better Brinks, que se comprometeu a reduzir sua pegada de carbono em 30% em quatro anos com mudanças nos processos industriais e na frota de veículos. A meta de retorno do fundo é de retorno anual de 35% a 45%. Segundo o gestor, os investidores são fundos de fundos brasileiros.

Para o próximo fundo, a gestora está em processo de análise de mais duas empresas, de nome ainda não divulgado.

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